Estávamos sentados, eu e ela. Um de frente para o outro, no maior clima de casal que se pode imaginar. Aquele clima de casal, depois de uma noite de guerra, daquelas que só os melhores relacionamentos ou os piores sobrevivem.
— Me passa o café, por favor, Paloma!?
Não abri um meio sorriso, como de costume. Apenas falei. Seco. Ela atendeu meu pedido, pegando a garrafa de café e colocando mais perto de mim, na mesa. Com força. Pude ouvir um estalo no vidro da mesa, levei meu olhar até o dela. Continuei sério e depois desviei.
— Obrigado.
— Por nada.
Silêncio constrangedor (1). Despejei café na minha xícara preto e branca, e duas colheres de açúcar. Continuamos nosso café-da-manhã. Paloma já estava comendo das suas torradas prediletas, quando reparei que ela tinha olheiras. Ela chorou, provavelmente a noite toda e a culpa foi minha. Estremeci por alguns segundos, mas depois o orgulho retomou o controle. A discussão foi feia. Cheguei em casa muito tarde, e ela estava me esperando, acho que estava meio bêbado. Me lembro de alguns relances da briga, como ela me xingando e quebrando um porta-retratos. Ela gritava muito e chorava também. Eu revidava com palavras agressivas e argumentos idiotas. Não me lembro muito bem. Mas, acho que estava errado. Enfim, acabei dormindo no sofá.
— Nossa! minhas costas estão me matando. -- Reclamei, sem esperança de resposta.
— Humm - ela murmurou,sem sequer me olhar. -- Me passa o adoçante, por favor, Gustavo?
Suspirei, depois de atendê-la.
__ Obrigada.
Tudo estava errado, e aquele clima me fazia querer vomitar. A ressaca também. E, a culpa. Acho que tudo queria que meu café-da-manhã não terminasse bem.
— Ta amargo. - ela disse, após beber o primeiro gole do café e fazer uma careta.
— Você colocou adoçante, oras. Não tem gosto de nada Paloma. Você sabe disso. -- Meio que abri um sorriso, que ela logo tratou de desmanchar, com sua próxima resposta. Eu não esperava, não aquela hora da manhã.
— Também. Mas, eu estava falando do nosso relacionamento.
Fiquei sem palavras, sibilei algumas palavras, mas nenhuma saiu. Todas ficaram na minha boca. Querendo saltar e se soltar, elas queriam ser livres. Queriam se explicar, ou fazer qualquer coisa, menos me deixar calado. A única palavra que se atreveu a sair da minha boca, e com minha voz, depois de alguns minutos do constrangimento (2) contínuo, foi:
— Desculpa -- Foi quase um sussurro.
— Por? Você não fez nada, não é mesmo, Gustavo? Ontem, você não fez nada. Só esqueceu uma coisinha besta, uma coisinha que iriamos fazer ontem. Juntos.
— Desculpa, de verdade. Eu só esqueci. -- Pus a mão na cabeça e depois á passei pelo rosto, meio que tentando escondê-lo. Eu tinha mais vergonha do que fome naquele momento. E do que dor-de-cabeça.
— Não, não desculpo. Se você quer saber, por mim está tudo acabado.
Meu coração acelerou e minhas mãos tremeram. Um pouco de café escapou da xícara e queimou minha mão. Não senti dor, não na mão. Tudo que eu conseguia perceber era uma dor enorme no peito, e uma vontade crescente de vomitar. Meu estômago se revirava. Eu estava muito mal. E só por causa de uma droga de data especial? Ela queria terminar tudo por … uma besteira?
— Como?! Não. Vamos casar, Paloma, você não lembra? Me perdoa, por favor! -- Eu queria gritar as palavras, mas tudo o que meu coração estava permitindo era um sussurro. Quase inaudível, de tão baixo. Ela começou a chorar, outra vez. E, agora eu estava sóbrio.
— Isso mesmo. Eu sei que você é um ótimo namorado, e que vamos casar. Sei que você vai me dizer que não posso terminar só por uma droga de data especial. E sei que você deve estar muito magoado agora, assim como eu. -- Suspirou -- Desculpa, Gustavo, mas o que você fez ontem foi a pior coisa que você poderia ter feito. Eu te conheço muito bem, sei tudo o que você pode e está pensando, mas não dá. Eu pensei e chorei a noite toda. Acho que nunca chorei tanto na minha vida! e por você eu choraria muito mais, mesmo. Eu te amo tanto, Gustavo, você não faz ideia do quanto que eu …
Estava paralisado, apenas minha perna esquerda se mexia. Tremia freneticamente, embaixo da mesa, sem se importar com o que acontecia. Eu estava nervoso e calado.E meus pensamentos eram os mesmos, alternando-se entre si. Ela me ama. Ela nunca tinha dito que me amava antes. Agora ela ta dizendo, e ta terminando comigo. Mas, por que? Não entendo! Realmente, não entendo! Que raio de data foi ontem, que causou tudo isso?! Ta errado! Ta tudo errado! O que ta acontecendo? A gente vai ter filhos Paloma! não vai? 3? 4? Você se esqueceu deles? Paloma, não me deixa, eu te amo tanto quanto você me ama. Por favor, não me deixa. Era isso o que minha pequena mente processava. Só isso. E, ela continuava a falar.
— Sabe, você poderia ter esquecido qualquer data, qualquer uma mesmo. Meu aniversário, nosso aniversário de namoro, primeiro beijo, dia que nos conhecemos. Qualquer um. Mas, você não tinha o direito de estragar o que faríamos ontem.
Espera um pouco. Se não foi por nada disso, por que foi, então?
— Não foi nosso aniversário de namoro? Hãn? O que pode ser tão importante que isso?
Ela suspirou. Parou de falar e começou a chorar, muito. Não tive coragem de consolá-la. Eu também precisava de consolo. E, agora, também estava chorando. Feito um bebê. As lágrimas apenas escorriam pelo meu rosto. E passamos, pelo menos quinze minutos falando sobre o nosso amor, e sobre como deveríamos ficar juntos. Eu falei tudo o que queria. Disse que a amava e não podia viver sem ela. Disse que nenhuma farra com amigos era mais importante que ela. E, que ela era a mulher que eu escolhi para casar e criar meus filhos. Que ela era minha força e minha fraqueza. Que ela era meu motivo de sorrisos. Mas, antes que eu pudesse terminar de me explicar, ela me interrompeu.
— Você sabe o que você esqueceu, Gustavo? Nosso futuro.
Parei. Estava apenas escutando, e pude ouvir o vento soprar nos meus ouvidos e depois passar pelo meu corpo me arrepiando todo. Não podia acreditar, estava lembrando o que tinha na data. E, eu não podia acreditar. Como pude esquecer? Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Paloma continuou.
— Nosso filho. Você não veio me buscar para ir adotar nosso filho. Você preferiu algumas cervejas e uns amigos que só querem teu dinheiro. Eu te esperei e quando percebi que você não chegaria à tempo, comecei a chorar, desesperadamente. Passei a noite chorando, por você. Por nós. Pelo nosso filho e pelo nosso casamento. Ontem foi nossa ultima oportunidade e você estragou isso. Você estragou tudo. E, você nem tinha esse direito. Eu vou seguir minha vida, e não chorarei mais, por você. Embora sempre vá te amar. Você não merece nada que venha de mim. E nunca vai merecer, nem ao menos a solidão. Pessoas como você,Gustavo,que estragam um sentimento feito o amor, merecem a saudade e mais nada.
Não disse mais nada. Foi só silêncio na cozinha. Mais tarde, ela foi embora. Nunca mais voltou, nem ligou. Eu continuei ali sentado, pelo resto do dia, tomando meu café. Frio e amargo. Eu ainda estava digerindo tudo aquilo e nem distinguia mais se aquela amargura vinha de mim, ou do café.

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