" Um dia qualquer em casa ". ( Biografico )

                        1° Capitulo: " Amizade e  irmandade "

 ___ Eu acho melhor ... - falei para minha irmã caçula . Não que ela pareça se importar com algo mais além das brincadeiras que faz com nosso cachorro. -- Comprarmos pão antes que anoiteça ; ainda não comemos nada.
___ Se acha melhor , então vá -- ela disse , arrogante . Provavelmente tinha ideia de que a pediria para ir em meu lugar , como sempre!
___ Só sugeri , pra falar a verdade não estou com fome. (mentira! Esta tarde e não havia comido nada desde a noite passada que devorei um hambúrguer sem nem pensar nas consequências, que me assombraram hoje de manhã).
___ Certo. Eu não vou . 
      Dei de ombros . Sabia que a fome a consumiria e uma hora ou outra ela iria; antes mesmo que percebesse estaria se imperequetando toda, ja que de acordo com a nossa mãe : " Não importa se formos no portão de casa ou na esquina, sempre devemos nos arrumar! Uma mulher tratada é muito bem mais vista e respeitada" .
       Nossa mãe é uma mulher ocupada , extremamente ocupada! Apesar de jovem e bela , vive seus dias como se fosse uma idosa implorando por sua aposentadoria . Já que mesmo exausta e com dores não tira folgas ou férias! Ela diz que é perda de tempo . Tempo . Uma coisa vaga na vida da Sr. Elecir ! E mesmo assim ela curti suas noites com o maridão (apelido dela) - Valdeci num barzinho bem frequentado próximo de casa,mas antes vêm nos ver . Reclama de coisas que não fizemos e até das que fizemos e começa a falar de mais um de seus dias cansativos de trabalho e então ela vai embora . Mamãe é diarista e nas horas vagas é mãe . Antes era o contrario , mas hoje em dia posso afirmar que quanto mais os filhos crescem mais as mães parecem arrumar a papelada para a aposentadoria , embora NUNCA  deixem de exercer suas funções nesse emprego eterno.
   
     Um tempo depois ... estamos eu e Lulu - minha irmã caçula ; na sala lanchando , comendo é claro os pães frescos que é claro ela comprou, rs . Quando bate na porta nossa vizinha Sandra que têm uns 10.000 cachorros! Brincadeira , uns 10 ou 15 vai saber . E daí Shrek - nosso cachorro fica todo agitado , latindo como se fosse a ultima vez , cada vez mais alto como se realmente precisasse chamar a atenção de alguém na rua , longe . E então ela o leva para passear .
___ Lu , você vai sair hoje?
___ Não . Não sei ... por quê? 
      Incrivel como ela muda de ideia - observei .
___ Por nada . Pensei em dar uma festa , beber e transar com qualquer um , mas com você aqui isso não será possivel , droga!! -- Bufei em meus pensamentos. -- Hum ,. Nem no campo? Hoje é sexta, não têm festa?
___ Por que quer tanto que eu saia? 
___ Nada , já disse . Só curiosidade . - Afirmei e ri em meus pensamentos . É claro que eu não iria dar a tal festa na ausência dela , mas beber e pegar alguém ainda não está fora de cogitação .
___ E você ? Vai sair ?
___ Talvez . Devo ir no condominio e só .
      Ela deu de ombros e se levantou do sofá para a cozinha . Retornou com mais um pão e se jogou novamente ao meu lado . Olhos fixos na tv .
       De repente me deu uma melancolia e minha expressão mudou . Por sorte ela não percebeu . Me levantei e fui ao banheiro escovar os dentes ., Olhei para a privada e me imaginei despejando a culpa que sentira agua a baixo , mas desviei o olhar e me encarei no espelho , como de costume , vi os olhos cheios d'água , disfarçados por um óculos e lábios vermelhos e sorridentes . Suspirei e sai . 

Mais tarde ... por volta das 20:00 .

___ Perae Shrek ! Oi Luciana , cadê sua irmã? -- diz Dona Elecir ao adentrar cheia de bolsas , cansada e estressada - como sempre!
___ Oi mãe! -- ela sorri . -- Esta no banheiro.
      Saio de lá e vejo ela se sentar no sofá pesada como um saco de cimento. Sua expressão esta vaga e preocupada .
___ Oi Adriana -- ela me vê . -- Vai sair ?
___ Oi mãe . Vou sim .
___ Aonde?
___ Não sei . Chegou cedo -- Mudo de assunto .
___ Cedo?! -- ela debocha . -- Se não fosse esse engarrafamento , ja estaria aqui faz tempo . Olha ... -- suspirou e moveu as pernas . -- Estou exausta!
       Eu e Lu nos olhamos , como quem diz: " Lá vem o mesmo discurso!" - sorrimos  e voltamos a função anterior , para apernas ouvi-la . Pois acredite conversar com ela nesse estado é pior , sempre gera uma discussão .
        Daí mamãe continua a se movimentar pela casa , mexendo em tudo e reclamando de tudo , super estressada . Até que ... diz: Mais tarde ou amanhã trago a comida , estou muito cansada, blá , blá , blá ... se despedi e sai . 
         Mais tarde lá estou eu a caminho do condominio , Lu com o namorado e mamãe no bar falando ; como se mtivesse acabado de acordar de uma longa semana dormindo num spa . Esta sorrindo , disposta e muito bem vestida! Como se tivesse se arrumado para ir a um cinema , jantar num restaurante ou como no mundo dela : Simplesmente para sair com o maridão. Conhecem o lema dela.
        Olho para ela e como sempre me intrigo : " Cadê o cansaço? "  e dou de ombros . Cumprimento todos na mesa , lhe abraço e saio para ver meus amigos .
        Bem ,bem mais tarde ... cerca das 02:00 da manhã , vou embora . Ruas com almas desocupadas e sozinhas , sigo ate a casa . Ligo para Lu e ela diz que dormira fora . 

                         2° Capitulo: " Do pesadelo a realidade . "

      Um mês depois ... na noite passada, tive um sonho que não paro de pensar até agora . Foi assim :

__ Mãe, vai sair? Mas eu acabei de chegar , gostaria de passar o dia com você . Aonde vai? - perguntei .
__ Hoje é aniversario da sua irmã - ela respondeu .
__ De novo?
__ Como assim de novo? Como todo ano você quer dizer né? - ela não conseguiu controlar uma risada .
__ Não, quero dizer ... falta uma semana para o natal, não é aniversario dela, eu saberia .
__ Anna, você bebeu? de novo . Tenho estado preocupada com você, anda sumida por um tempo e depois aparece aqui sem mais nem menos . 
__ Quanto tempo? - pergunto irritada com a brincadeira . 
__ Pelo que me lembro , já não te vejo a um mês . Todo ano você some misteriosamente um mês antes do aniversario da sua irmã, não entendo por quê .
      "Um mês! Todo ano? " Como assim?. Não me lembro nem de ontem , nem anteontem... Foi ai que me toquei. Eu não lembro de nada desde mais ou menos um mês atras quando ... briguei com a minha irmã e paramos de nos falar por bobeira,admito. Mas ... como foi que esqueci? Eu só me lembro que tenho uma casa, tenho muito dinheiro, tenho um emprego fixo , sou famosa, mas não me lembro de compartilhar tudo isso com minha familia . O que está acontecendo? - me assustei ao pensar e sentei no sofá .
__ Anna, estou atrasada, vai ficar? - ela disse seca. 
__ Mãe? Eu te fiz alguma coisa? Esta diferente .
__ Você que se distanciou e faz tempo. Antes até me ligava mais e vinha aqui quando tinha folga, agora só sei da sua vida porque leio os jornais e revistas. -- Ela afirmou com melancolia. 
__ Sinto muito, mas estou tão perdida quanto você. Estranhamente não me lembro de muito tempo . A ultima coisa que me lembro é que eu e minha irmã passamos o natal sem se falar e depois eu viajei e não me lembro de voltar ou de pelo menos vê-la .
       Ela me encara muito assustada . 
__ Isso faz 10 anos! Hoje é 23 de novembro de 2018 
__ O QUÊ? -- Exclamei e me afastei , cai no sofá de novo e esfreguei os olhos . Só posso estar sonhando - pensei . -- Não , não ... não! -- Neguei em pânico . 
__ Minha filha precisa procurar um mèdico . Não é a primeira vez que você sofre perda de memoria . Da ultima vez saiu em todos os jornais a 2 anos , quando proximo do natal você estava num bar muito doida, fui ate te buscar, mas você entrou no carro e fugiu . Depois de 3 dias te encontraram dormindo numa praia deserta . Você não anda nada bem querida .
__ Pelo visto não - suspirei . Confusa demais pra pensar no por quê . - Mãe, eu vou com você.
__ Vamos de pressa . 
       Saimos. No meu carro . Deixei minha mãe dirigir pois estranhamente não me lembro o endereço . Chegamos no Grajau. É uma casa linda - branca, grande e aconchegante , com varanda e tudo, mas sem plantas ou arvore. 
__ Vó -- ouço um grito a frente. 
__ Como vai lindinho da vó? - ela o abraça e entrega um presente.- E vai entrando com ele. Vejo um menino lindo, branquinho , aparentando 2 ou 3 anos .
      Continuo seguindo devagar, distante . Mais como se tivesse invadindo do que visitando a minha irmã ou qualquer outro conhecido .
__ Mãe! - ouço um pouco mais baixo pelo barulho das inumeras pessoas na casa . -- Vamos! Entre .
       Entro rapido e fecho a porta, sem chamar a atenção e me misturo aos convidados , me "camuflando" até poder vê-la sem que me veja. De repente, mais perto ouço:
__ Miguel, já falei pra não correr enquanto come, meu deus! 
__ Calma minha filha - ela ri e começa a conversar com um homem alto e moreno.
__ Mãe ele dá muito trabalho! Leva pra sua casa,leva! - ela ri. A voz não me é familiar, mas não posso deixar de achar que seja minha irmã. 

    Uma loira alta de pele bronzeada com o Sol, cabelos ondulados e alinhados. Corpo definido e magro debaixo de um vestido coladinho preto. - Que não faz o estilo dele nem um pouco! -- penso e puxo um sorriso. De repente minha mãe olha para trás, provavelmente a minha procura. Vira de volta pra eles e pedi que eles aguardem, e lá vêm em direção a sala. Puxo ela pelo braço gentilmente e ela se assusta, mas não chama a atenção.
__ Por que esta escondida ai, parece doida! -- ela diz.
__ Sou famosa lembra? - Já vi gente ate tirando minha foto, mas banquei a ignorante para que não chamassem a atenção e eu acabasse estragando a festa . -- sussurrei .
__ Anna , por favor ... -- ela diz com fadiga . -- Você conhece a maioria dessas pessoas! Todos sabem que você é irmã da Lucia . E se viu alguem tirando sua foto, deve ser algum fã ou um dos amigos novos do trabalho da sua irmã . 
__ Certo - suspirei - não sei se de alivio ou mais preocupação de não me lembrar disso! -- Essa é ela? E quem são esses? -- perguntei olhando os porta-retratos ali sobre o movel ao nosso lado.
__ Sim! Esse é o Hugo, marido dela. E esse é o Miguel,filho dela. 
__ Ela se casou?? - pergunto assustada.
__ Meu Deus! E você foi
madrinha com as amigas dela. Assim,como é madrinha do Miguel. Assim, como você deu essa casa de presente de casamento! Não acredito que não se lembra de nada disso. As lembranças mais importantes na vida da sua irmã.-- ela suspirou decepcionada.
__ Eu ... sinto muito -- sussurrei .
__ Depois falamos disso, no médico!! -- ela ri. -- Agora vêm, quero que fale com ela! É aniversario dela e já não aparece a anos. 
       Murmuro alguma coisa para impedir , mas ela é mais forte e me arrasta ate a cozinha . Fico ereta e tento parecer tranquila, não quero que minha irmã veja que estou com medo da sua reação ou de que quero ir embora correndo.
__ Anna! -- ela exclama, muito, muito surpresa, o que me surpreende por lembrar da minha aparência . Ah, jornais e revistas - claro - penso e abro um sorriso . - Mãe! O que ela faz aqui??
      O sorriso some. 
__ Lucia, isso é modo de receber sua irmã?!
__ Vou procurar o Miguel - diz o marido dela. E sai. Mas antes diz : Oi Anna, quanto tempo! Fique a vontade - ele abre um sorriso.
      Lucia lança um olhar pra ele de desgosto, o que faz com que ele saia na hora. Eu me assusto com sua simpatia e digo " oi , obrigada, antes que ele vá ."
__ Então , quero que saia . -- ela diz seca e ajeita o cabelo - vou ... - e nem termina de dizer quando ja sai andando . Mas minha mãe a segura pelo braço e sussurra: Vocês vão conversar , Chega disso! Sua irmã não esta nada bem, fico surpresa ate dela lembrar o proprio nome.
__ Isso não me surpreende! Agora ela lembrou que tem uma familia?! Não quero saber! Ela não foi no aniversario do meu filho, no meu casamento estragou a cerimonia com a multidão de paparazzis ... já faz muito tempo que não liga ou aparece no meu aniversario; só manda um buquê de flores e um cartão comprado de ultima hora ... -- ela exclama com raiva .
__ Eu estou ouvindo tudo - murmuro .
__ É pra ouvir mesmo!! -- ela exclama ao olhar pra mim .
      Reviro os olhos vendo que ainda continua barraqueira . 
__ Sabia que não devia ter vindo aqui! Pode deixar estou indo .
__ Pelo menos concordamos em alguma coisa -- disse brava.
__ Anna! e Lucia! Parem com isso! Eu não vou me meter, já são duas adultas se resolvam! - ela exclama e sai com a garrafa de vinho da mesa e sua taça . 
__ Anna , vá embora! - ela diz assim que minha mãe sai .
__ Não, me desculpa! Sinto muito . Sinto muito por tudo!! - exclamo triste . 
__ É tarde! - ela resmunga mais calma .
__ Deixa eu me redimir com você? Por que paramos de nos falar? -- com o silêncio dela, continuo. -- Por que eu não confiava em você?
__ Pra você vê onde chegamos com isso! A distancia e ao sucesso . 
__ Isso é bom?!
     Ela me olhou outra vez, dessa vez demorou mais. Era o mesmo olhar,querendo que eu soubesse de alguma coisa que ela não estava afim de dizer,apenas, eu deveria saber. Eu, olhei ao redor, parecia tudo em ordem. Uma grande mesa recheada de comes e bebes e a casa com musica alta e muita alegria . Não me parecia ser algo ruim . Exceto que não nos falamos .
__ Qual é o seu problema? - ela exclamou . - Como pode ser bom? Se você acha bom ter dinheiro, fama e tudo mais que têm nessa sua vida -- ela disse em deboche . -- Então é bom! mas se pra isso perdeu sua irmã, se afastou de toda a familia, estragou o dia mais feliz da minha vida, não conhece seu sobrinho, deixou de ser madrinha dele por isso e nunca mais apareceu no meu aniversario,no dele, dos nossos pais ... então, pra mim, você não têm nada!! E no seu lugar,eu iria querer não ter mesmo. Porque com tudo isso, ficou sozinha Anna! -- ela exclama calma e triste (por nós). 
    Arregalo os olhos, ouvindo ela desabafar cansada. 
__ Sinto muito! Sinto muito! -- exclamei a interrompendo e me aproximei com os olhos cheios d'agua. -- Eu sinto saudade. Apenas isso. Não tenho como controlar. Vi uma foto sua e sorri. Um sorriso que me transportou para o passado, para onde tudo era lindo, eramos unidas e amigas. - Me perdoa Luly - implorei .
    Muitas vezes uma palavra como já disse pode mudar tudo, hoje o poder das palavras me atacou como uma facada, por que isso tinha que acontecer? Acho que ja era hora de me redimir com o tempo e as consequências que trouxe . E será que sou uma pessoa tão ruim assim? E foi esse ultimo pensamento chorando que me acordou pra tomar uma atitude . 

Um conselho: " Um erro cometemos sempre! A diferença é como vamos nos redimir dele! Não deixe que o passado interfira nas nossas ações adiante!" Falta de confiança, nem sempre é falta de amor. 

Que dias melhores ... Tragam um novo amanhecer .


3° Capitulo:


" Um dia qualquer em casa ". (Biografico) 

                Parte 2

    Tinha acordado cedo. Cedo demais para um sábado. Ela deveria mesmo acordar mais cedo nos fins de semana. Aproveitar o dia. Não havia necessidade nenhuma de dormir tanto quanto ela gostava. Mas dormir era seu refugio - ela me disse uma vez .
     Tomou um banho rápido. Colocou roupas velhas,caseiras e confortáveis. Não tinha intenção de sair, há dias. Mas estava arrumada. Com os longos cabelos, fez um coque propositalmente desleixado. Passou protetor solar, base... Não havia vida alguma em seu rosto. Um pouco de blush melhoraria a situação, talvez, quem sabe. Nos lábios, um pouco de gloss levemente sobre seu batom avermelhado. Ela deveria mesmo parar de usar aquele batom extremamente vermelho. Mas adorava! se sentia melhor e mais forte com ele. Me perguntava as vezes,como era possivel uma simples cor numa parte tão pequena do corpo lhe deixar linda,confiante e bem! só em usar. Mas era assim que ela se sentia.
      Saiu. Comprou pão, comprou o jornal do dia. Voltou para o seu pequeno apartamento no primeiro andar. Preparou um belo café-da-manhã: frutas, pão, suco, café ... e éramos só nós duas a se deliciar com o banquete. Eu a observei um pouco. Ela deveria mesmo comer direito. Uma xícara de café preto e puro não era um desjejum saudável para ninguém. Mas de acordo com as inumeras pesquisas que lia de loucas dietas na internet ... café puro e quente ajuda a acelerar seu lerdo e obsoleto metabolismo. Por fim, conversamos pouco, rimos mais! sempre rio com ela. Ela é comediante por acidente! nos faz gargalhar sem se quer ter a intenção. E eu amo isso nela. Têm a capacidade de me arrancar um sorriso mesmo quando estou triste. Talento, talvez .
      Lavou a louça, deixou a cozinha limpa á combinar com o resto da casa que passou a madrugada arrumando. As vezes isso acontece, ela surta e faz tudo! Mas enfim, foi para o quarto frio. Cama arrumada. Janela aberta. A luz do dia invadiu o cômodo de um modo quase criminoso. Chocante. Ela sorriu. Eu não vi,mas sabia que estava sorrindo. Ela ama o tempo assim: nublado,frio,úmido e chuvoso. E quando pensei que iria descansar,dormir ou sei lá . Abriu as portas do armário. Esvaziou o móvel. Espalhou todas as suas roupas pela cama. Encontrou aquele anel que acreditava ter perdido. Aquele casaco que acreditava ter doado a meses e outras coisas que só ela podia ter esquecido. Organizou as gavetas e elas parecem ser de escritorio. Sua papelada antiquada de cartas e rascunhos ainda permaneceram num canto. Não sei porque ela nos se desfaz. Ela deveria mesmo arrumar suas coisas com mais frequência. Talvez . Quem sou eu pra julgar. Meu armario vai fazer seu 7° aniversario bagunça.
 Pausa. Hora do almoço.
     Preparou uma lasanha,queijo e presunto. Afinal, o almoço era a refeição mais importante do dia! Não que ela ligasse. Portanto,esse era meu prato favorito. Ela não tinha certeza se massa seria o prato apropriado,afinal,sabe que suas batatas fritas me ganham. Mas com certeza era melhor do que um sanduíche engolido às pressas,antes de eu ir pro curso. Ou como era próprio da sua rotina: nescau e biscoito. Admito,somos muito praticas quando se trata de comida.
      Apos o banho,comemos. Deixou a pia limpa mais uma vez. Admito que se tivesse um brigadeiro de sobremesa não iria reclamar. Sentou-se na pequena poltrona confortável, aconchegou-se e suspirou. O mesmo jornal comprado mais cedo estava já sendo forrado no chão para nossa mais nova cachorrinha: Pandora,utilizar. Foi ai que pensei: Ela deveria mesmo ler mais jornais ao inves de vê-los. Parar de ter tanto medo das manchetes ficarem rondando seus pensamentos. Parar de ter tanto medo do que há la fora. Parar de ter tanto medo. Foi ai que trocou o vazio que encarava, distante; por suas pastas e papeladas de livros, sem fim. E leu até quando a luz natural permitiu. Talvez um pouco mais.
       Guardou tudo e voltou do quarto com o coração acelerado, percebeu que não tinha nada para fazer. Assustou-se. Não era pra menos, passou as ultimas horas extremamente ocupada . Agora que enfim,não há nada ...
__ Isso não podia acontecer - ela exclamou.
     Tirei os olhos do celular e olhei pra ela. Conhecia bem aquela expressão. Mãos vazias, sua mente procuraria memórias que hoje inicio de fim de semana, mais do que nunca, fariam com que ela se torturasse. Então, sugeri:
__ Vá correr .
__ Hoje não .
     Ouço isso ja faz duas semanas . E ela parando as corridas ... hum, estamos indo de mau a pior. Tudo vira uma bola de neve e quando damos conta ela já está um mês sem sair de casa. Me preocupei. E passei os minutos seguintes lhe oferecendo opções para se distrair e nada. Todas recusadas,como sempre.
      Nove horas. Comecei a me arrumar. O perigo havia começado ou passado. Ela agora teria opções de filmes programados na Sky e minha mãe esta para chegar. Então,enxaguou os cabelos da massagem. Saiu do chuveiro, eu me maquiava diante do espelho do banheiro. Ela parecia melhor : despreocupada. Sabia que logo ligaria o secador e se ocuparia escovando os cabelos, ouviria musica ao mesmo tempo e veria os filmes, quem sabe.
       Ah, sim. O jantar. Teriamos a sobra do almoço ou um lanche. Deveria ser uma refeição leve. Ela logo estaria na cama. Ela deveria mesmo começar a se alimentar direito. Quem sabe assim não teria tanta dor no estômago, não é mesmo? Deitou-se no sofá. Ligou a TV. Encontrou um filme romântico,filme de tardes abafadas. Esperou pacientemente uns 20min. para que ele acabasse e enfim,assistir o seu. Mais um que ela ja assistiu tanto que decorou as falas. Eu já nem me espanto mais. NEM ESBOÇO REAÇÃO,COMO: "De novo?" ou "Não cansa?" - Quem cansou fui eu .
     Dez horas. Estou pronta. Seu filme começou. Minha mãe liga e avisa que está chegando. Ambas ficamos ansiosas (as três). Eu olhei pra ela,estava fixa na tv. Me despedi e sai com minha amiga que ja tinha tocado o interfone duas vezes. Tão euforica quanto eu pra cair na gandaia.

       Duas e meia da manhã . Cheguei. Ela estava na cama, agarrada ao seu edredom. Dormindo .

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